Engenheiros brasileiros ganham reconhecimento internacional.

A engenharia brasileira é capaz de inovações incríveis e de superar dificuldades. É o que afirma Roberto Kochen, diretor de Infraestrutura do Instituto de Engenharia de São Paulo e professor doutor da Escola Politécnica da USP, referindo-se ao talento dos profissionais do país e, em especial, à equipe que desenvolveu o Tatuzão híbrido ou TBM (Tunnel Boring Machine EPB – Earth Pressure Balanced), utilizado na obra da linha 4 do metrô carioca.

O trabalho de adaptação da máquina para as condições do solo da Zona Sul do Rio rendeu aos engenheiros Julio Pierri, Alexandre Mahfuz e Carlos Henrique Turolla, além dos consultores Marc Comulada e Ulrich Maidl, o prêmio de Inovação Tecnológica do Ano, no ITA Tunnelling Awards 2016, a maior premiação da área de túneis do mundo. Os vencedores fazem parte da equipe da Construtora Norberto Odebrecht, líder do Consórcio responsável pela obra.

Da areia à rocha

O grande desafio da escavação era atravessar um solo menos denso, composto por etapas de rocha e areia saturada por água, em uma área muito povoada, que vai de Ipanema ao Leblon.

– Existem muitos tipos de Tatuzão prontos, mas nenhum com as especificações de que precisávamos. Tivemos que adaptar uma máquina e também desenvolver polímeros e outros materiais que, enquanto a escavação ocorria, iam sendo injetados no solo para deixá-lo mais firme, evitar movimentações bruscas do terreno e garantir a segurança da operação – relata Alexandre Mahfuz, coordenador de produção do TBM.

O desenvolvimento do novo modelo e também dos materiais específicos levou cerca de um ano e meio. Antes mesmo de as obras começarem, foi feito um trabalho intenso de prospecção do subsolo e monitoramento da superfície para assegurar a preservação das ruas e das construções do entorno.

– Os engenheiros enfrentaram desafios dia após dia, metro a metro, todos superados devido ao planejamento. A máquina passou perto de fundações de prédios sem causar nenhum abalo – salienta Dante Venturini, diretor do Centro de Inovação da Odebrecht.

Agilidade

Além da segurança, outro ganho significativo do uso da máquina e da dinâmica de realização da obra foi a rapidez:

– O Tatuzão híbrido permitiu que passássemos por todos os tipos de solo. Se fosse uma máquina convencional, teria parado no meio do caminho. Nesse sentido, o desenvolvimento de todo o projeto deu agilidade à obra – ressalta Mahfuz. Roberto Kochen concorda:

– Foi uma obra com prazo curto. O sucesso no desenvolvimento e na utilização da máquina é um atestado de competência para a engenharia brasileira.

Inovação é marca registrada

Outras áreas da construção civil também ganham com as inovações tecnológicas e de metodologia desenvolvidas pela engenharia brasileira.

– Nesse setor, há técnicas consagradas para tudo. Mas não podemos nos conformar com isso. Temos sempre que ir atrás de soluções diferentes. As inovações trazem, além do aperfeiçoamento, mais produtividade e economia de recursos humanos, econômicos e de equipamentos – destaca Dante Venturini.

O BubbleDeck é um exemplo que reúne todas essas características. Para reduzir o peso das lajes, tradicionalmente feitas com concreto maciço, este sistema utiliza esferas ocas de material petroquímico, reduzindo em 25% a quantidade de concreto utilizada na obra e sem alterar a sua resistência. A tecnologia foi utilizada na ampliação do estacionamento do aeroporto RIOgaleão, liderada pela Construtora Norberto Odebrecht.

– É um sistema dinamarquês adaptado para as nossas condições, e resulta em economia de materiais, de fundações e de prazos, já que as lajes são pré-moldadas e montadas com guindastes – explica Venturini.

Também merece destaque o Light Steel Frame, empregado na construção de 46 Unidades Municipais de Educação Infantil da Prefeitura de Belo Horizonte (MG). Já muito usado em países como EUA, Canadá e Japão, este sistema tem o aço galvanizado de baixo peso como principal elemento estrutural. São painéis de parede e de teto que substituem tijolos e concreto, tornando a construção mais leve e mais rápida.

Outra inovação já testada e aprovada é a utilização de blocos de isopor na construção de rodovias. O solo mole da rodovia Dom Pedro I, na região que liga Jacareí a Campinas (em São Paulo), não suportava o trânsito de veículos pesados. O Aterro Ultraleve com EPS, uma tecnologia europeia que usa blocos de isopor EPS (Expanded Polysterene) na substituição do aterro convencional, feito com terra, foi a solução para tornar a obra possível.

– Claro que não é isopor como aquele usado em trabalhos escolares. É um isopor de alta densidade que dilui as tensões. Utilizamos no preenchimento de todo o solo mole, para o chão suportar grandes cargas, até mesmo de carretas que passem sobre ele – exemplifica Venturini.

Preservação da vegetação nativa foi preocupação constante

Grandes obras podem ser realizadas com o mínimo de impacto não só aos moradores, mas também à natureza. Seguindo essa premissa, antes do início da perfuração do túnel da linha 4 do metrô, aproximadamente três mil espécimes de bromélias e orquídeas típicas da região – algumas em risco de extinção – foram resgatadas do Morro do Focinho do Cavalo, na Barra da Tijuca.

O trabalho foi uma parceria entre o Consórcio Construtor Rio Barra, responsável pelas obras da linha 4 entre Barra e Gávea, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto de Pesquisa Jardim Botânico (IJB). Especialistas em rapel, orientados por botânicos do IJB, realizaram a extração das plantas, que ganharam uma nova casa no Cactário do Jardim Botânico.

Para uma adaptação tranquila, as bromélias e orquídeas foram replantadas como em seu habitat natural, em uma encosta ao fundo do Cactário. Uma técnica pioneira foi empregada para elas se desenvolverem em cima de rochas: os especialistas criaram ilhas de vegetação com telas, cobertores de feltro e terra, possibilitando que as plantas se prendessem novamente às rochas.

Fonte: x

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