“Quero socializar ao máximo o meu conhecimento”, diz indígena formado em medicina.

Além de vestidos, camisas e gravatas, a cerimônia de formatura de 2016 em dezembro dos estudantes de medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) teve cocares.

Amaynara Silva Souza e Vazigton Guedes Oliveira, conhecido como Zig, alunos da etnia Pataxó, fizeram questão de usar o adereço. Eles estão entre os primeiros beneficiados de um programa que destina vagas especificamente para indígenas no Brasil — antes deles, um outro indígena já havia se formado em julho pelo mesmo programa.

O programa foi criado pela UFMG em 2009, e já no ano seguinte a universidade passou a aceitar alunos para os cursos de enfermagem, medicina, ciências biológicas, ciências sociais, agronomia e odontologia, por meio de um processo seletivo especial.

Membro de uma comunidade pataxó em Cumuruxatiba, no sul da Bahia, Vazigton Guedes faz parte da primeira turma de ingressantes, de 2010, mas se afastou dos estudos por seis meses, o que fez com que se formasse ao mesmo tempo que Amaynara Silva.

Em entrevista ao Nexo, Zig afirma que cursava biologia na Universidade do Estado da Bahia, mas estava insatisfeito e decidiu prestar medicina quando lideranças de sua comunidade o procuraram para falar sobre os benefícios oferecidos pela UFMG.

 

 

Vazigton, índio Pataxó, colou grau usando cocar e outros adereços de sua tribo (Foto: Arquivo pessoal/Reprodução)

 

Agora, planeja se especializar em medicina de família e comunidade antes de voltar para sua aldeia. Ele afirma que, dessa maneira, ajudará a sanar o problema da alta rotatividade de médicos e irá melhorar o acesso à saúde em sua comunidade. Veja abaixo a entrevista completa:

Como foram os seus estudos até você chegar na Universidade?

VAZIGTON GUEDES OLIVEIRA A nossa comunidade tem quase 2.000 pessoas em cinco aldeias, mas as terras onde ela fica ainda estão em processo demarcatório, com o Ministério da Justiça [o processo de demarcação passa por Fundação Nacional do Índio, Ministério da Justiça e Presidência].

Tem uma disputa judicial porque ela fica, em teoria, em um parque [ambiental] de uso integral, o que dificulta muito o crescimento. Teoricamente não pode ter visitação ou construir nada ali dentro.

Nem o Ministério nem o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente] deixavam construir nada, e na minha época não existia escola na comunidade indígena. Minha formação foi toda em uma escola não indígena na vila de Cumuruxatiba. Para chegar lá, tem que pegar a estrada, que fica muito ruim em dias de chuva. Em dias normais eu ia de bicicleta e demorava cerca de 30 minutos.

Mas em 2002 conseguimos liberar a construção de escolas no território e no ano que vem teremos a primeira turma do segundo ano do ensino médio.

Sem esse programa os indígenas não conseguiriam entrar nessa universidade, até pela diferença de qualidade do ensino público e privado.

 

Vazigton posa de jaleco para o convite de formatura (Foto: Arquivo pessoal/Reprodução)

Como você se interessou pela medicina?

VAZIGTON GUEDES OLIVEIRA Aqui na comunidade tem um problema, porque vêm médicos de São Paulo ou Rio que têm uma rotatividade muito grande. Eles vêm, ficam no máximo um ano e voltam.

Isso é ruim porque aquele que chega tem que conhecer de novo todos os pacientes e suas famílias e ganhar sua confiança. Se tivesse apenas um médico, o acompanhamento seria melhor e mais constante. Provavelmente só isso já melhoraria os indicadores de saúde.

Como tenho muitos amigos que são biólogos no território, imaginei que tinha um vínculo muito grande com essa área, e cheguei a cursar ciências biológicas pela Universidade do Estado da Bahia até o terceiro ano. Mas não gostava muito do curso e tentei outros vestibulares, como arquitetura e urbanismo na PUC do Rio.

Mas nessa época a comunidade ficou sabendo desse programa [da UFMG], que era muito bom porque dava bolsa, transporte e condições para se manter até o final do curso.

O cacique e os professores indígenas, que são as lideranças da comunidade, sugeriram que eu prestasse o vestibular e eu prestei.

 

 

Como foi o suporte para cursar a universidade? Houve problemas?

VAZIGTON GUEDES OLIVEIRA Existe uma comissão especial de acompanhamento de estudantes indígenas que inclui diretores e professores e que nos dá suporte. Cada curso tem um tutor responsável.

Eles são os referenciais para quem repassamos as falhas que identificamos. O objetivo é manter os indígenas na universidade.

Sou da primeira turma que entrou, em 2010. Como os dez alunos indígenas estudavam até tarde, nunca conseguíamos nos encontrar para discutir. A comissão pediu e conseguimos uma casa onde moramos todos juntos no primeiro ano. E, como sempre acontece no início de um programa, apareceram problemas.

Um deles foi com a bolsa. O acordo firmado entre UFMG e Secad (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação) previa uma bolsa de R$ 400 com a qual pagávamos transporte etc.

Mas em 2010 começou a ter atrasos, e chegamos a considerar desistir em conjunto bem no início do programa, até a UFMG conseguir resolver.

Todos os alunos indígenas vêm de escolas públicas, e o nosso conhecimento é muito discrepante em comparação com os não indígenas — a maioria vem de escolas particulares boas.

Algumas vezes ficamos para trás em algumas disciplinas, e os tutores nos ajudavam a entrar em contato com professores do colégio técnico. Esse foi um ponto importante de apoio.

 

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É possível que formandos indígenas não voltem para as aldeias?

VAZIGTON GUEDES OLIVEIRA Que os indígenas voltem para as aldeias é um objetivo declarado do programa. Temos que assinar um termo de compromisso quando prestamos o vestibular. Mas não tem fiscalização, e acho que ninguém vai nos dizer que não podemos ficar.

Não sei dizer se algum dos alunos deve ficar na cidade por encontrar alguém, formar família, etc., mas espero que não, que todos eles voltem.

A vida inteira [de um indígena] é na comunidade. Minha família inteira mora aqui, o que me faz voltar, e acho que não tem lógica passar por um programa de valorização voltado para a comunidade indígena e não voltar. Se isso acontecer, vai significar que, no final das contas, o programa não está funcionando.

Mas a princípio acho que todos voltarão se tiver vagas nas comunidades. Outra opção seria trabalhar em alguma outra, mas isso vai da consciência de quem se formar.

Eu não quero voltar agora porque, se eu fizer isso, talvez me acomode. Meu objetivo é estar preparado para socializar o máximo do meu conhecimento. Agora quero fazer residência em medicina de família e comunidade, para depois voltar.

Como funciona o programa de formação para indígenas

Os cursos foram definidos com base nas demandas apresentadas por comunidades indígenas. Além de Pataxó, a UFMG já recebeu alunos de etnias como Xakriabá, Kaxixó, Tupiniquim e Terena.

Além de criar duas vagas por ano especialmente para indígenas em cada um dos cursos, o programa também oferece acompanhamento pedagógico suplementar, fornecido por professores de ensino médio do colégio técnico da UFMG, moradia estudantil e acesso a assistência estudantil, que inclui bolsas, alimentação subsidiada e estágios.

Esse não é o único programa do tipo do Brasil. No Paraná, uma lei estadual de 2006 garante vagas suplementares para indígenas em universidades estaduais, o que faz com que instituições como a Universidade Estadual de Londrina e a Universidade Estadual do Norte do Paraná tenham programas do tipo.

Além disso, a Universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal de Santa Maria estão entre as que oferecem vagas suplementares.

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